O outro cinema latino de Fernando Pérez

ImagePela primeira vez no Festival do Rio, o diretor cubano Fernando Pérez (foto), do bem-sucedido documentário Suíte Havana, veio lançar seu novo longa-metragem: Madrigal, sobre um escritor que mistura a realidade com a fantasia. O filme tem sessões no Estação Ipanema 1 nessa segunda 24, às 15h30 e 20h. E na sexta 28, às 19h15, no Cine Santa.

Segundo o cineasta, ao abrigar este evento, a cidade do Rio de Janeiro torna-se um ponto de encontro para que se pense como é possível fazer um outro cinema, um outro cinema latino-americano. Pérez afirma que a cinematografia latina é mais bem definida por sua diversidade e lamenta a falta de intercâmbio existente entre seus países. “Há uma série de filmes latinos que às vezes não conseguimos achar, mesmo dentro da própria América Latina. É difícil que se possa ver filmes argentinos no México”, exemplifica.

Pérez acredita que o mundo inteiro esteja condicionado a assistir às mesmas produções, as boas, as más e as piores. A importância dos festivais está nesta tomada de consciência. Além disso, os filmes são difundidos e os interessados por outras formas de fazer cinema podem se reunir e trocar idéias.

É nesse cinema diferente que o diretor está interessado. Ele busca uma “deliberada artificialidade” nas telas, através da criação de um universo que, embora distinto da realidade, seja tão forte quanto ela. “Madrigal já foi exibido em outros lugares e sei que não se trata de um filme fácil. Estou consciente disso, pois ele exige participação dos espectadores.”

O protagonista é Javier, um jovem criativo que converte tudo em literatura. Ele interpreta um ator de teatro. No dia da estréia de sua peça, na platéia há apenas uma espectadora, que vai embora quando ele está prestes a falar. Intrigado, decide seguir a misteriosa moça, Luisita. Devido a uma aposta, Javier faz de tudo para conquistá-la. Suas experiências acabam servindo de inspiração para escrever.

Em Madrigal, três histórias se entrelaçam: a do teatro, a da vida dos personagens e a do conto de Javier. “Nem tudo o que parece é. Tudo pode ser ficção. Tudo pode ser realidade”, alerta Pérez.

A idéia para fazer o longa surgiu quando o diretor cubano leu uma crítica de Guillermo Cabrera Infante sobre o filme As Grandes Manobras (1955), de René Clair. No texto, Infante revela que os produtores mudaram o final originalmente pretendido pelo cineasta francês, por considerá-lo muito trágico. “Sempre quis fazer um filme com o final que René Clair não pôde fazer.”

Durante o Festival do Rio, Pérez quer assistir à Silenciosa luz , do mexicano Carlos Reygadas, vencedor do prêmio do Júri em Cannes este ano. Também pretende encontrar Camila Gúzman, que fez o documentário A cortina de açúcar, sobre Cuba. Embora ainda não tenha montado a programação de quais filmes brasileiros pretende ver, ele lembra que gostou bastante de Lavoura Arcaica, do diretor Luiz Fernando Carvalho. Segundo Pérez, a cinematografia brasileira é muito querida em Cuba devido ao Cinema Novo. “Deus e o diabo na terra do sol foi muito marcante”. Destaca ainda a repercussão que Central do Brasil, Cidade de Deus e, mais recentemente, Dois Filhos de Francisco tiveram em Havana. Talita Marçal

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